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Com versos

O senhor Benjamim, vizinho de longa data, estava à janela de sua casa quando me viu a passar e logo meteu conversa. Devo frisar que sempre gostou de me perguntar acerca de temas que o preocupam ou de coisas que vai descobrindo. Desta vez perguntou-me o seguinte:

- O que acha disto do Covid-19 ter sido criado em laboratório? Quero dizer, de não ter surgido no mercado de Wuhan como se diz.

-  Por acaso também ouvi essa ainda no outro dia. Não me diga que lhe aparece também no mural do facebook? - disse-lhe a esboçar um sorriso.

- Precisamente! Uns vídeos a dizerem que os chineses querem dominar o mundo e que isto seria um acto de bioterrorismo.

- Mas por que razão é que iriam criar uma pandemia no seu próprio país e não apenas em sítios que querem controlar?

- Ora, porque assim disfarçam que foram eles que criaram o dito vírus.

- E portanto, para si, sacrificariam alguns do seus próprios cidadãos de modo a encobrir tudo isto? 

-  Poderia ser uma hipótese, mas nada disto faz muito sentido. Repare, por que razão colocariam em risco a sua própria economia? - perguntou o Senhor Benjamim com um ar intrigado.

- Não sei, mas uma coisa é certa: eles têm muito dinheiro e a economia abrandou mas não colapsou. Sabe se houve algum cientista ou entidade oficial que se tenha pronunciado em relação a isso?

- Não, mas se não estou em erro, uma das pessoas que tinha defendido essa teoria do vírus oriundo de um laboratório foi o Mike Pompeo, que tem uma posição bastante elevada no governo dos E.U.A. 

- Tudo o que venha do Governo dos E.U.A. nesta altura deve ser bem escrutinado. Aquele Trump é exímio em espalhar fake news e a criar controvérsia! Já pensou que ao dizer-se que este vírus foi criado em laboratório se está a tentar criar apenas desinformação? Na verdade, o que interessa neste momento é saber como travar o contágio do vírus. - disse-lhe um pouco exaltado.

- Exactamente; e nada neste assunto ajuda a travar o contágio. Já há tantas dúvidas em relação ao vírus; se pensarmos nos dados científicos que são divulgados e no mar de contradições que daí advém tudo fica mais complexo e chega a ser tremendamente confuso. Por exemplo, afinal o vírus sobrevive quanto tempo em superfícies? As pessoas que apanham o vírus ganham anticorpos de longa duração? Poderão ficar com mazelas para a vida toda?

- Isso para mim é que me faz mais confusão: parece que estes médicos e cientistas não se põem de acordo em nada. Seria importante que houvesse algum consenso na comunidade científica. Se são dados científicos, e portanto obtidos através de uma metodologia estabelecida, porque é que muitas vezes as conclusões são tão díspares?

- Talvez porque têm expectativas sob os seus resultados e usam condições iniciais que são diferentes. A mim acontece-me muito vejo o meu clube de futebol a jogar e acho sempre que vamos ganhar. - disse o Senhor Benjamim enquanto esboçava um sorriso.

- Para além de que é bastante ingrato retirar os resultados de alguém fora de contexto e apenas expor as conclusões.

- Olhe, tal qual como os títulos das notícias que costumo ler mas que depois não abro a notícia e acabo por não saber se aquilo descreve o conteúdo da mesma de uma forma precisa e imparcial.

- Isto como em tudo é preciso tempo; tempo para ler com atenção, para reflectir e para reproduzir as experiências  e verificar se cientistas em diferentes lugares do mundo chegam aos mesmos resultados. 

- Pois, se calhar dever-se-iam criar protocolos que sejam idênticos em todos os países. Umas normas ou algo assim.

- É como isso do número de testes e do número de casos que parece que cada país faz a sua coisa e depois não ser percebe se dá para comparar entre eles ou se os números são verdadeiros. - disse-lhe com um ar indignado.

- Sim, o número de casos não deve ser uma medida absoluta porque depende do número de testes efectuados. Se se testa ou não mais pessoas num determinado país ou se há pessoas assimptomáticas que não são testadas, não me parece que seja uma medida muito fiável. 

- Exacto. Porque essas pessoas normalmente não vão ser testadas e, portanto, apesar de terem o vírus não contam como número de infectados. Para mim, o mais importante é o número de pessoas que precisa de cuidados intensivos, que se deve manter baixo para que todos tenham acesso a uma cama de hospital.

- Isso é o que me assusta também. E nós que andamos aqui a ver esses números todos e estatísticas e até já sabemos o que é o número R. Eu só lhe digo que já estou farto de ouvir esses números e já nem ligo muito. Não aguento mais!

- Mas olhe, e já apanhou as uvas todas este ano? - e aproveitei para ver as horas no telemóvel.

- Já sim. É uma ciência que não falha por esta altura.

- Veja lá que isto com o aquecimento global pode ainda mudar.

- Por acaso, tinha algo para lhe dizer sobre isso.

- Vai ter de ficar para outro dia que tenho de ir andando para fazer um bolo de laranja. Adeus senhor Benjamim.

- Adeus meu caro.


(ao Rainer Maria Rilke cujas histórias do bom deus foram ampla fonte de inspiração deste texto)

João Burgal (Marinhais, 1988) vive atualmente no Porto e é doutorado em Engenharia Química pelo Imperial College London. Fez investigação em membranas poliméricas para aplicação em processos de separação em contínuo e também em fraccionamento de biomassa e processos sustentáveis. A sua paixão pelos processos em contínuo levou-o à indústria farmacêutica com o objectivo de revolucionar a sustentabilidade e qualidade dos mesmos.


Em 2017 decidiu fazer uma viagem pela América do Sul onde fez voluntariado numa comunidade do Vale Sagrado dos Incas. A intersecção entre ciência e arte é um dos seus interesses, com particular foco na questão da literacia científica de forma a compreender o mundo moderno. 

Autor

João Burgal

Tipo

Texto

Data

2020-10