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Mundo


O Mundo.

Qual é a imagem que se forma na minha cabeça quando imagino o mundo?


A primeira fotografia do nosso Planeta Terra foi tirada em 1946.

Logo após o fim da Segunda Guerra Mundial e muito antes da corrida espacial ter oficialmente começado, um grupo de cientistas e de soldados americanos decidiram lançar uma câmara em direção ao céu. A partir da base militar White Sands no Novo México, foi lançado um dos mísseis V-2 capturados à Alemanha Nazi; transformado num dispositivo de observação, o míssil transportava uma câmara de filmar de 35mm, que tirava uma fotografia a preto e branco a cada segundo e meio. Foi nesse lança-mento, já acima da linha Kármán (1), a 105 km de altitude, que foi capturada a primeira vista da nossa superfície terrestre.

A primeira imagem do mundo alguma vez vista...

Na altura, que imagem teriam estas pessoas, na sua cabeça, quando falavam do mundo em que viviam?


Clyde Holliday, o engenheiro que modificou o míssil e construiu o dispositivo com a câmara numa caixa de ferro para poder suportar a sua iminente queda, publicava na National Geographic em 1950acerca das várias possibilidades desta nova tecnologia e do que aí viria para o mundo científico e militar, imaginando como esta nova imagem “se pareceria para visitantes vindos doutro Planeta numa nave espacial.” (2) Num lançamento de pura curiosidade, e sem saberem ao certo o que poderiam esperar desta tentativa de ver mais alto, este grupo de cientistas e de soldados tinham, na verdade, acabado de descobrir uma nova forma de olhar para o mundo.


Passados 11 anos, Sputnik 1 deixava a atmosfera da Terra e iniciava uma inédita órbita em torno do mundo. Assim começava a corrida espacial travada como batalha entre a União Soviética e os Esta-dos Unidos da América. Apesar dos interesses obviamente políticos e militares dos dois países, este foi um período de grandes avanços científicos e tecnológicos que mudaram profundamente a nossa relação com o Planeta Terra.


Mas talvez a primeira imagem que instintivamente se forma na nossa cabeça quando pensamos no mundo não seja uma imagem a preto e branco. Uma esfera mais ou menos perfeita, vista de longe, mais ou menos grande, aparentemente imóvel, de um azul forte com manchas brancas, castanhas e verdes, a destacar-se do fundo negro do Espaço... Talvez a imagem que temos dentro de nós seja a mais famosa e icónica fotografia do nosso Planeta. “The Blue Marble” (3), tirada a 7 de dezembro de1972 pela equipa Apollo 17 na sua viagem de partida da Terra para a Lua, a 45,000 km de distância.Esta foi a primeira fotografia tirada ao nosso Planeta totalmente iluminado, e desta vez tirada por um ser humano. Acontece que esta é também uma das fotografias mais reproduzidas e distribuídas na História da Humanidade. Graças à sua incessante reprodução e repetição, a “The Blue Marble”original tornou-se num protótipo para qualquer fotografia tirada ao Planeta Terra que tenha o mesmo enquadramento, sendo que as suas cópias são designadas também como blue marbles. (4)


Actualmente as imagens do nosso mundo tornaram-se num lugar-comum. De incríveis e fascinantes passaram a aborrecidas e banais. Aquilo que era visto como fotografias únicas e icónicas ficaram reduzidas a meros ícones, não muito diferentes dos que existem hoje nos nossos teclados digitais.


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O Mundo...

Com a sucessão de fotografias espaciais que continuaram a ser lançadas dentro deste período de rápido desenvolvimento da tecnologia espacial, entre 1957 e 1975 e continuamente até aos dias de hoje, foi possível criar novas ciências e sistemas de navegação como a meteorologia e o GPS. Desde o lançamento de Sputnik 1 até 2018, mais de 8 mil satélites foram lançados para o espaço, a grande maioria deles para continuar a registar imagens do nosso Planeta. Neste momento quase 3 mil satélites continuam em órbita à volta da Terra para poderem fornecer actualizações diárias de imagens. (5) Através da Internet estas imagens pairam em volta de nós, constantemente, de forma virtual, online, sempre presente, a actualizar um mundo digital.


Mas se antes a Blue Marble chegou a ser um ícone dos movimentos ambientalistas dos anos 70, representativa de um mundo frágil e vulnerável, o que é que hoje uma imagem renderizada do PlanetaTerra da Google Earth realmente representa?


Não é por coincidência que a plataforma que conhecemos hoje como Google Earth se chamava EarthViewer nos anos 2000. Na sua génese, a plataforma virtual funcionava como um observatório - como o nome sugeria - utilizada maioritariamente pela CIA para seguir as missões militares noIraque, motivo pela qual foi tornada mais conhecida quando os canais americanos CNN, ABC e CBS utilizaram a sua imagética para seguir e publicitar a invasão ao Iraque em 2003. Em 2004, a empresa que desenvolveu o software, Keyhole, Inc, foi adquirida pela Google e no ano seguinte a plataforma foi renomeada para o incontornável “Google Earth”.

Para além da importante correspondência entre observações e os interesses políticos e militares, aGoogle Earth é agora uma plataforma digital que se tornou indispensável para a percepção visual de um mundo que designamos actual. Qualquer um de nós recorre a ela para nos situarmos geograficamente, para nos guiarmos pelas suas estradas e ruas, para viajarmos até ao outro lado do mundo antes de irmos de avião.


O nosso desejo de observar levou-nos a criar um mundo constituído por imagens coladas que nos dão a ver algo que é meio documentado, meio ficcionado. Documentado enquanto repositório de um infinito número de fotografias do nosso Planeta. (6)

Ficcionado na forma como nós o olhamos.


As fotografias que compõem esse mundo digital formam uma série de camadas de imagens, provenientes de diversas fontes e tiradas em períodos de tempo muito diferentes - desde meses a anos de diferença. Quando queremos ver um sítio no mundo, à medida que nos vamos aproximando desse ponto do globo vamos passando de uma fotografia tirada por uma nave da NASA para uma fotografia tirada por um satélite, para uma fotografia tirada por um avião até chegarmos a uma fotografia tirada por um carro, ao nível da Street View. (7) É através desta sucessão de fotografias que, depois de edita-das e “coladas” pelo software exclusivo da Google, nos é dada a ilusão de uma imagem única e coesa do mundo. Feito de realidades fragmentadas, o desfasamento temporal entre as fotografias torna impossível distinguirmos o que é passado do que é presente. Apesar da sua procura pela perfeição deste globo (8), o modelo digital nunca irá significar o mesmo que o mundo real significa.


Então talvez a função que o Goggle Earth reserva para a sua plataforma não seja o de representar, mas sim o de idealizar.


Ainda que a Google nos proponha a oportunidade de fazermos parte deste mapeamento visual do nosso mundo, este é um convite para a construção desse mundo apenas enquanto agentes de imagens. A acção proposta é somente a de adicionar as nossas fotografias, as nossas observações, à sua plataforma. (9) Vemos demasiado, mas ainda assim parece que não é o suficiente.

Este globo virtual entrou nas nossas vidas e transformou-nos em avatares. O mundo do futuro depois do mundo de hoje acontece exclusivamente no mundo virtual - um mundo ao qual só podemos assistir, o qual podemos observar, fotografar, mas não realmente construir.


Não terá a imagem do Planeta tornado aquilo que nos é próximo em algo longínquo? Parece que a nossa Terra, a nossa realidade começou a ser transformada aos poucos num objecto que aparenta estar muito longe de nós...


O Mundo...

Tornou-se numa imagem que nos parece escapar... tremida e ao longe, como uma miragem.



(1) Com uma altitude de 100 km acima do nível domar, a linha Kármán define a fronteira que separa a atmosfera do Planeta Terra do espaço sideral.

(2) Tradução livre para português da frase publicada: “how our Earth would look to visitors from another planet coming in on a space ship.”

(3) A fotografia pode ser vista na página da NASA com a sua legenda original: https://solarsystem.nasa.gov/resources/15849/the-blue-marble/

(4) Em 2002 a NASA lançou um set de blue marbles: https://visibleearth.nasa.gov/images/57723/the-blue-marble

(5) https://www.geospatialworld.net/blogs/how-many-satellites-orbit-earth-and-why-space-traffic-management-is-crucial/

(6) Podemos aceder ao repositório de imagens que foram registadas ao longo dos últimos 35 anos: https://earthengine.google.com/timelapse/

(7) A Street View é constituída de fotografias tiradas pelos carros da Google de 9 câmaras ou - se os carros não conseguirem entrar em certas zonas - pelos seus “Google Trekkers”.

(8) O motto que aparece na sua página inicial é: “O globo mais detalhado do mundo”.

(9) A Google convida as pessoas a serem colaboradores do Street Viewhttps://www.google.com/streetview/contributors/



Catarina Braga (Guimarães, 1994) é licenciada em Artes Plásticas - Multimedia pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Expõe o seu trabalho a nível internacional desde 2015, e publica regularmente o seu trabalho em revistas de arte, como a ArtSZine (2018, Shenzhen), a Minimal Zine (2019, Barcelona) e a revista Dose (2019, #3, Porto).


A artista desenvolve a sua prática artística em volta de problemas sociais vividos actualmente como o aparecimento de teorias da conspiração, o uso excessivo de imagens na nossa cultura, a crise do aquecimento global e as estruturas de poder que utilizam a certeza para estabelecer os nossos sistemas politico-sociais.

Autor

Catarina Braga

Tipo

Artigo e Vídeo

Data

09-2020